Estudo identificou alterações em peixes e uma amostra de linguado com chumbo acima do limite permitido. Dados foram divulgados justamente quando a pesca profissional começa a ser retomada em trecho do litoral entre Aracruz e Linhares.
Onze anos depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), os impactos ambientais da tragédia continuam sendo identificados na bacia do Rio Doce. Uma pesquisa coordenada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) encontrou peixes com deformidades, lesões e tumores, além de registros de contaminantes acima dos limites estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em algumas amostras.
Os resultados foram divulgados nesta quinta-feira (5), data em que se completam 11 anos do desastre ambiental que lançou milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração no Rio Doce, atingindo municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo.
Entre os registros apresentados pelos pesquisadores estão deformidades em larvas de peixes, ovos inviáveis e alterações observadas em animais adultos. O levantamento também identificou mudanças na composição das comunidades de peixes e nos indicadores ambientais da região.
Um dos resultados que chama a atenção envolve três peixes marinhos com alterações externas: duas corvinas e um linguado. Os exemplares foram capturados por pescadores e encaminhados congelados para análise, a pedido do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
As análises, realizadas pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), identificaram no linguado uma concentração de chumbo de 0,726 miligrama por quilo. O limite máximo tolerado pela Anvisa é de 0,30 mg/kg.
Nas duas corvinas, as concentrações dos quatro metais regulamentados avaliados — arsênio, cádmio, mercúrio e chumbo — ficaram dentro dos limites estabelecidos. Entretanto, os pesquisadores também observaram lesões na pele e uma massa nodular que se estendia da região da mandíbula até a cavidade oral de uma das corvinas.
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Pesquisa não determina se o pescado é seguro para consumo
Um dos pontos mais importantes do levantamento é que o Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA), coordenado pela Ufes, não tem como objetivo avaliar diretamente os riscos à saúde humana decorrentes do consumo de peixes.
A universidade também esclareceu que os exemplares analisados não representam necessariamente as condições de todo o pescado da região. A metodologia do programa não é direcionada especificamente à captura de peixes em tamanho comercial ou destinados ao consumo humano.
A Ufes informou que está prevista a inclusão de peixes de interesse comercial e em tamanho comercial no próximo ciclo de monitoramento.
Isso significa que os resultados encontrados são relevantes para acompanhar a situação ambiental, mas não permitem afirmar que todos os peixes da região estejam contaminados ou impróprios para consumo.
Anvisa também identificou amostras de água doce acima do limite
Em avaliação própria, registrada na Nota Técnica nº 48/2026, a Anvisa analisou dados de monitoramento de pescado da região.
Segundo as informações divulgadas, as amostras de pescado marinho e de caranguejos de mangue avaliadas ficaram dentro dos limites estabelecidos para os contaminantes analisados.
Já entre os peixes de água doce, quatro amostras de acará e pacu apresentaram concentração de cádmio acima do limite máximo tolerado. A agência informou que essas amostras não devem ser destinadas ao consumo humano.
Esse resultado reforça a importância de diferenciar as análises de água doce e marinhas, assim como os locais e as espécies avaliados.
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Pesca foi retomada em trecho entre Aracruz e Linhares
A divulgação dos resultados ocorre em um momento de mudança nas regras da atividade pesqueira na região. No dia 26 de outubro, os ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente publicaram a Portaria Interministerial nº 75/2026, estabelecendo regras para a retomada da pesca profissional em uma área marítima próxima à foz do Rio Doce.
O trecho delimitado vai da região de Barra do Riacho, em Aracruz, até Degredo/Ipiranguinha, em Linhares, dentro da faixa de profundidade de até 20 metros.
A atividade poderá ser exercida por pescadores e embarcações devidamente regularizados, quando exigido pela legislação, respeitando também as regras de defeso, áreas de restrição, espécies protegidas e demais normas aplicáveis.
Segundo o Governo Federal, a decisão considerou dados de monitoramento ambiental e pesqueiro, além das avaliações sanitárias realizadas pela Anvisa. O governo informou que os níveis de contaminantes monitorados no pescado da região não apresentaram indícios de preocupação naquele momento.
Pescadores relatam preocupação com animais encontrados
Além dos dados científicos, pescadores que trabalham em áreas atingidas pelo desastre relataram encontrar animais com alterações que, segundo eles, não eram comuns antes do rompimento da barragem.
Entre os registros mencionados estão tartarugas com lesões, peixes com machucados aparentes e ostras cobertas de lama. Um pescador de Aracruz também apresentou um linguado com alterações que aparentam ser tumores.
Os relatos aumentam a preocupação de trabalhadores que dependem da pesca e convivem diariamente com o ambiente atingido pelos rejeitos.
Monitoramento aponta melhora, mas impactos persistem
De acordo com a Ufes, os indicadores de contaminação na água, nos sedimentos e nos peixes apresentaram redução gradual ao longo dos anos. Entretanto, a melhora não significa que todos os problemas ambientais tenham sido resolvidos.
A universidade explicou que as condições ambientais ainda podem oscilar, especialmente em períodos de chuvas intensas, aumento da vazão do Rio Doce e mudanças nas condições oceanográficas. Esses fatores podem provocar a movimentação de sedimentos acumulados e favorecer a liberação de contaminantes na água.
Onze anos depois da tragédia, os resultados mostram que a recuperação ambiental da bacia do Rio Doce continua sendo um desafio. Para comunidades como as de Linhares e Aracruz, que têm relação direta com o rio e o mar, a continuidade do monitoramento e a transparência das informações são fundamentais.
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